O amor também pode ser cuidado
Você me deixou perguntas que
envelhecem comigo. Mas, mesmo sem respostas, ainda falo com você. Há dias em
que o silêncio pesa menos quando finjo que você me escuta. Em outros, tudo o
que consigo dizer é aquilo que nunca tive coragem de falar quando você ainda
estava aqui.
Às vezes, sinto que só existo
porque continuo esperando por você. Se um dia quiser sair do seu mundo e
conhecer o meu, minha casa estará de portas abertas. Não à casa de tijolos e
janelas, mas aquela que construí dentro de mim, entre cicatrizes e novas
esperanças.
Sinto falta das nossas
conversas, dos silêncios que não incomodavam, dos sorrisos que sabiam onde
pousar. Talvez uma mudança de ares lhe faça bem. Talvez você também precise de
um lugar onde possa reaprender a respirar.
Se for para recomeçar, que
seja daqui. Que o mar leve tudo o que ainda me prende: os medos herdados, os
fantasmas do passado e as lembranças que me impedem de caminhar com leveza.
Aprendi que recomeçar não é
esquecer, mas acolher o que fomos sem permitir que isso nos defina para sempre.
Já não escrevo por você. Escrevo por mim. Pela que estou tentando ser: inteiro,
mesmo com as partes quebradas.
Esta ainda não é a minha
cidade. Mas talvez um dia seja. Por enquanto, é o lugar onde deixei de ter receio
de começar do zero, onde voltei a ouvir o som do meu próprio riso após
tanto tempo e parei de esperar permissão para existir.
A dor ainda mora em mim, mas
está menos barulhenta. Já não me tira o sono, embora ainda me visite nos dias
nublados.
Não sei se o que sinto agora é
amor, um recomeço ou apenas um sopro de primavera após tantos invernos.
Seja o que for, não vou me esconder novamente.
Sempre achei que amar fosse
esperar. Depois, pensei que fosse sofrer. Agora, talvez esteja começando a
entender que o amor também pode ser cuidado. Pode ser silêncio sem ausência,
presença sem sufoco, liberdade sem rompimento dos laços.
Hoje, ele me olhou como quem
vê algo raro. Não disse nada, mas eu senti. E também olhei para ele, sem medo. Pela
primeira vez, me vi pelos olhos de alguém que não me compara ao que fui, mas me
aceita pelo que sou: aqui, agora, sem pressa.
Se isso for amor, que seja
assim: um abraço demorado, uma escuta atenta, uma presença firme.
Não quero mais um amor que me
arrebate e depois me abandone. Quero aquele que fica, que cuida, que floresce
no chão machucado sem exigir perfeição, apenas verdade.
Porque, após tanto tempo
tentando sobreviver às ausências, começo a compreender que amar não significa
perder-se no outro. Às vezes, amar é encontrar alguém diante de quem finalmente
podemos ser nós mesmos.
E, desta vez, quero ficar
comigo também.

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