À Tua Ausência


 

A distância ingrata que nos separa é, para mim, um suplício que corrói lentamente os alicerces da alma. Os dias arrastam-se em uma lentidão insuportável, e as noites – oh, as noites… – são assombrosas, pesadas como pedras sobre o peito.

No meu quarto silencioso, onde apenas o tique-taque do relógio testemunha minha solidão, volto o olhar para a lua através da janela e imagino – com a ternura dos que amam demais – que, talvez, neste exato instante, teus olhos também se percam na mesma luz suave e prateada.

Imagino que a brisa noturna te acaricie a pele como antes faziam meus dedos. Que o luar derrame sobre ti o mesmo afago que, em tua ausência, eu gostaria de te oferecer. E fecho os olhos – não por desejo de dormir, mas pela necessidade de te sonhar.

É então que tua imagem me visita: viva, quente, próxima. Sinto tua respiração misturar-se à minha, teus murmúrios insinuarem-se no silêncio como uma música conhecida.

Tua voz, que me falta, reaparece no espaço rarefeito da imaginação. Teu perfume – aquele que eu amava sem jamais saber nomear – parece ainda impregnado nas paredes, no travesseiro, nos lençóis.

E tua presença, antes tão concreta, retorna em devaneios febris que me percorrem o corpo inteiro. Sinto-te como se, de fato, estivesses aqui: teus sussurros tocam meus ouvidos como uma brisa morna; tua proximidade invade meus pensamentos e rompe, por alguns instantes, os limites da razão.

A febre do desejo percorre minha pele em ondas, e já não sei distinguir o que é lembrança, o que é invenção e o que é carência. Vivo a ilusão de que teu hálito morno me beija o rosto, de que tua boca se aproxima da minha com aquela fome mansa que conheço tão bem.

E, quando nossos lábios finalmente se encontram – ainda que apenas no sonho –, esse beijo imaginado torna-se mais intenso, mais profundo, mais necessário do que qualquer realidade. A ausência, paradoxalmente, torna tudo mais vivo.

Meu amor, longe de enfraquecer-se, amplia-se. E o desejo, em vez de dissipar-se, multiplica-se até transbordar. Agora que não tenho o tesouro da tua presença, preencho as horas com a lembrança dos teus carinhos, dos teus beijos demorados, dos teus arrebatamentos de ternura e paixão.

E se ainda assim me restarem horas vagas – aquelas que o tempo teima em prolongar –, preenchê-las-ei com a ânsia de te ver, com o desejo infinito de voltar a ti, com a esperança silenciosa de que ainda possas me querer.

Isto que sinto… é amor?

Não sei.

Talvez seja amor. Talvez seja desatino. Talvez seja loucura. Talvez seja tudo isso misturado, numa fusão ardente de alma e carne, de ausência e fantasia. Mas, seja o que for – amor, desatino ou delírio –, eu o deixo aos teus pés, como a oferenda mais humilde, mais honesta e mais desesperadamente sincera que um coração já foi capaz de oferecer.

Talvez o amor verdadeiro não seja apenas aquilo que vivemos enquanto estamos juntos. Talvez também seja aquilo que permanece quando já não há mãos para tocar, braços para envolver ou olhos para encontrar.

Talvez amar seja, algumas vezes, aprender a conversar com a ausência. E eu ainda converso contigo.

O Que Ainda Me Habita

Com o tempo, deixei de esperar tua volta. Não por falta de amor, nem por cansaço, tampouco por esquecimento. Simplesmente compreendi haver presenças que não retornam – e que, ainda assim, continuam habitando a gente como se nunca tivessem partido.

Carrego tua ausência como se fosse pele. Está em mim de forma silenciosa e profunda, sem alarde. Aprendi a acordar sem te procurar do outro lado da cama, embora, em alguns dias, minha mão ainda deslize pelo lençol como se te buscasse no escuro.

E, às vezes, busco mesmo. Como quem reaprende a viver sem saber exatamente onde pisa.

O que me habita agora não é apenas lembrança. É outra coisa. Algo mais sutil, mais irreversível. Uma espécie de amor amadurecido pela dor, polido pelo tempo, moldado pelo silêncio.

Um amor que já não suplica, que já não pergunta, que apenas existe – sereno, intacto, sem exigir retorno. Tu me deixaste muito mais do que a tua falta. Deixaste teus gestos nas minhas mãos, tua delicadeza nos meus olhos, tua voz no modo como agora escolho cada palavra.

Foste embora – sim –, mas me reformaste por dentro. Já não sou aquele que te conheceu, tampouco aquele que te perdeu. Sou o que ficou depois. O que aprendeu a amar mesmo sem mais tocar. O que aprendeu é que algumas pessoas moram em nós permanentemente, como uma raiz que se espalha debaixo da terra e sustenta a árvore, mesmo invisível.

Em alguns dias, ainda dói. Em outros, sinto uma ternura suave, quase grata, por viver contigo algo tão inteiro que nem o fim foi capaz de desfazer. E talvez seja isso que me mantém de pé: saber que, mesmo sem o “nós”, ainda carrego comigo aquilo que fomos — como um templo construído com o tempo e a memória, erguido em um lugar onde ninguém mais pode entrar.

Se te foste de mim, deixaste, em contrapartida, aquilo que havia de mais verdadeiro. E é esse amor calado, constante, que agora me acompanha. Já não é grito. Já não é desespero. É presença interior. É memória. É aquilo que permaneceu quando tudo o mais partiu.

É o que ainda me habita. E, por isso, sigo. Com teus gestos nos meus. Com tua luz nas minhas sombras. Com nossas lembranças guardadas no lugar mais silencioso de mim.

Com tua ausência transformada em uma estranha forma de permanência. Porque algumas pessoas partem da nossa vida, mas nunca partem completamente de nós.

E talvez esse seja o destino mais silencioso do amor: não permanecer ao nosso lado, mas permanecer em nós.

Francisco Silva Sousa.

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