Deixaste-me. Serás de outro!



Deixaste-me. E serás de outro. Outro herdará a riqueza do teu afeto, a suavidade da tua meiguice, a luz que ainda hoje emana do teu sorriso – aquele sorriso que, um dia, sonhei conquistar para sempre.

Outro terá a glória do teu amor. Receberá o carinho que tanto desejei, que persegui com o coração ardendo de esperança. Será ele a te beijar, a envolver-te em seus braços, a conhecer a intimidade dos teus gestos e a receber a intensidade de um amor que, durante tanto tempo, acreditei ser destinado a mim.

Ele te tomará nos braços. Receberá teus beijos sem reservas. E tu, com a alma entregue, te doarás por inteiro, como se o passado – o nosso passado – jamais tivesse existido. E eu, sabendo de tudo isso, ainda não enlouqueci. Ainda.

Não sucumbi completamente à dor que me atravessa como lâmina, nem me dissolvi na amargura que pesa sobre o peito. Continuo aqui. Respirando. Caminhando. Vivendo por uma espécie de teimosia que nem eu compreendo.

Repito para mim mesmo, escrevo e grito em silêncio: tu serás de outro. E eu continuarei vivo. Ó, mundo cruel, que permite tamanha incoerência! Tu, minha amada, pertencerás a outro, enquanto permanecerei aqui, condenado a imaginar-te em braços que não são os meus.

É tão absurdo que parece impossível. No entanto, é justamente essa a verdade que mais dói: algumas coisas podem terminar para uma pessoa enquanto continuam vivas, por muito tempo, dentro da outra.

Não tremem teus ombros quando pensas em outro homem te tocando? Não se revolta tua carne? Não protesta teu coração quando mãos estranhas procuram aquilo que um dia foi meu?

E teus lábios? Aqueles mesmos lábios que um dia pronunciaram promessas não hesitarão quando te perguntarem se aceitas outro como teu? Dirás simplesmente sim? Sem uma lágrima? Sem um suspiro? Sem que uma lembrança do nosso passado atravesse tua memória como um relâmpago?

Será possível que pronuncies essa palavra definitiva sem que o peso de tudo o que vivemos te faça hesitar? No entanto, eu sei. Tu o farás. Talvez sem crueldade. Talvez sem sequer perceber a dimensão da ferida que deixaste em mim. Talvez porque, para ti, o amor que vivemos já tenha se transformado em lembrança.

Talvez porque eu já não exista no teu coração. E talvez seja essa a parte mais difícil de aceitar. Mas, antes que o tempo apague completamente aquilo que fomos, deixa-me recordar.

Lembra-te daqueles dias em que o tempo parecia suspender-se quando nossos olhos se encontravam. Quando uma simples palavra tua era suficiente para aquecer minha alma. Quando estar ao teu lado fazia o mundo parecer menor e a vida, inexplicavelmente, mais bonita.

Lembra-te das noites em que sonhávamos juntos. Fazíamos planos. Inventávamos futuros. Acreditávamos que o amor seria suficiente para nos proteger de tudo. Hoje, desses sonhos, restaram apenas cinzas.

O que aconteceu conosco? Foram nossas falhas? As palavras que não dissemos?

Os silêncios que se acumularam lentamente entre nós? Ou foi simplesmente o destino, esse estranho senhor que tantas vezes separa aqueles que ainda se amam?

Talvez nunca saibamos. Recordo-me de tantas vezes em que te vi sorrir. Teu sorriso era meu abrigo. Era onde eu descansava quando o mundo se tornava pesado demais. Agora, será outro quem encontrará refúgio nele.

Outro que se aquecerá na tua luz. Outro que ouvirá tua voz ao despertar. E talvez eu tenha de aprender a aceitar que aquilo que um dia foi nosso pode, um dia, pertencer a outra história.

É estranho pensar que o amor possa mudar de endereço. Que os braços que um dia nos pertenciam possam acolher outro corpo. Que os lábios que pronunciavam nosso nome aprendam a pronunciar outro.

Talvez o amor não morra de uma só vez. Talvez ele apenas deixe de morar em duas pessoas e viva sozinho dentro de uma delas. E é exatamente isso que acontece comigo.

Eu ainda vivo. Mas carrego uma espécie de morte no peito. Cada batida do meu coração parece repetir teu nome. Cada manhã me lembra que estás longe. Cada noite me devolve aquilo que tento esquecer durante o dia.

Enquanto isso, o mundo continua. As estrelas continuam brilhando. O sol continua nascendo. As pessoas continuam sorrindo, amando, partindo e chegando.

A vida não interrompe seu curso apenas porque alguém está sofrendo. E eu continuo caminhando. Despedaçado, talvez. Mas caminhando. Porque, apesar de tudo, ainda existe em mim alguma coisa que se recusa a morrer.

E se um dia te encontrares verdadeiramente feliz nos braços de outro, não te desejo infelicidade. Não. Talvez eu apenas deseje que, em algum canto esquecido da tua memória, sobreviva uma pequena lembrança de mim.

Uma lembrança dos nossos dias. Dos nossos sonhos. Dos nossos abraços. Daquilo que fomos antes que o tempo nos transformasse em estranhos. E, se algum dia teu coração perguntar quem foi aquele homem que um dia te amou tanto, espero que não precises procurar muito pela resposta.

Fui eu. Aquele que te amou quando ainda havia esperança. Aquele que sonhou contigo quando o futuro parecia infinito. Aquele que, mesmo após perder-te, continuou carregando teu nome no peito.

E talvez seja esse o meu último destino: amar-te na distância, lembrar-te no silêncio e aprender, pouco a pouco, a viver sem ti.



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