Onde tudo começou
A gente passa a
vida inteira querendo voar. Queremos sair, conhecer o mundo, descobrir novos
lugares, viver outras histórias. Sonhamos com a distância porque, quando somos
jovens, acreditamos que a felicidade está sempre em algum lugar além do
horizonte.
Partimos levando
pouco daquilo que somos e muito daquilo que desejamos ser. Deixamos para trás a
casa, a rua, os amigos, os cheiros, as vozes e até aquelas pequenas coisas que
um dia pareciam sem importância. E voamos.
Conhecemos
outros caminhos, construímos novos afetos, enfrentamos perdas, conquistamos
algumas coisas e fracassamos em outras. O tempo passa, e aquilo que parecia tão
distante começa, curiosamente, a se aproximar em nós.
Um dia,
percebemos que não sentimos saudade apenas de um lugar. Sentimos saudade de
quem éramos quando estávamos lá.
Saudade da
infância que não volta, das pessoas que ficaram pelo caminho, das tardes que
pareciam intermináveis, das conversas que hoje só existem na memória.
Saudade até das
dificuldades, porque o tempo tem essa estranha capacidade de transformar
antigas dores em lembranças que aprendemos a abraçar. Talvez seja esse um dos
paradoxos da existência: passamos boa parte da vida tentando nos afastar das
nossas origens para, mais tarde, compreender que elas nunca se afastaram de
nós.
Podemos conhecer
o mundo inteiro, morar em diferentes lugares e percorrer milhares de
quilômetros. Ainda assim, existe dentro de cada um de nós um lugar que
permanece.
O lugar onde
tudo começou. E talvez amadurecer seja justamente compreender que voar nunca
significou esquecer de onde viemos. Porque chega um momento em que já não
queremos apenas ir para longe. Queremos voltar.
Nem sempre para
ficar, mas para olhar novamente para aquilo que um dia deixamos para trás e
perceber que, apesar de todas as mudanças, uma parte de nós ainda mora ali.
A vida nos ensina a voar. A
saudade nos ensina onde ficam nossas raízes.

Comentários