As Grades do Destino


 

Como um pássaro que, através das grades, contempla o sol sem poder tocá-lo, admira as árvores sem jamais pousar em seus galhos e sonha com ninhos que talvez nunca construa – assim é o meu amor por você: aprisionado, inquieto, faminto de liberdade.

Meu coração, enjaulado pelas lembranças, bate com força contra as grades invisíveis do destino, enquanto minha alma se lança em voos que somente a imaginação consegue permitir.

Nas manhãs cinzentas, imagino seu rosto. Seu perfume parece ainda pairar no ar imóvel do meu quarto. Sua voz ressurge, silenciosa, entre as paredes vazias da casa e, sobretudo, dentro do meu peito.

Sua ausência tornou-se uma presença feroz. Habita meus pensamentos como um fantasma que se recusa a partir. Persegue-me nas madrugadas insones, nas promessas que não se cumpriram, nos beijos que ficaram apenas nos sonhos e nas palavras que morreram antes de serem pronunciadas.

Eu te amo. E, no fundo, ainda acredito que você também me ama. Mas existe entre nós um abismo que não consigo atravessar, uma cerca invisível que o tempo – ou esse destino irônico que tantas vezes brinca com aquilo que sentimos – ergueu no caminho de nossas vidas.

Nada parece palpável, exceto a dor. Nada parece realmente existir, exceto a falta. Quero não pensar. Preciso não sentir. Tento convencer a mim mesmo de que é possível aprender a conviver com esse vazio, como quem aprende, lentamente, a respirar debaixo d'água.

Mas como calar um coração que insiste em gritar seu nome? Como ensinar ao corpo que os seus abraços agora pertencem apenas à memória?

Preciso me acostumar a tê-la assim: cravada em mim como uma rosa de espinhos, profundamente enraizada no peito, mas distante das minhas mãos. Uma lembrança viva que, ao mesmo tempo, me consola e me tortura.

E então, no silêncio das noites, uma pergunta retorna: Onde você está? Em que lugar repousam os seus pensamentos? Será que, às vezes, você também sente essa mesma dor?

Será que, mesmo distante, alguma coisa em você ainda reconhece a minha presença? Será que, em alguma madrugada silenciosa, você também escuta o chamado do meu amor?

Se ao menos essas grades fossem feitas apenas de ferro… Mas não são. São feitas de tempo, de escolhas, de circunstâncias, de caminhos que se cruzaram quando talvez não deveriam e depois se desencontraram quando mais precisavam permanecer juntos.

E é justamente isso que torna a prisão ainda mais cruel: não existe chave para aquilo construído pelo passado. Ainda assim, continuo aqui. Esperando. Sonhando.

Porque talvez o amor seja isso: permanecer diante de uma porta que o destino insiste em manter fechada, mesmo quando o coração continua acreditando que, algum dia, ela poderá se abrir.

E talvez, nesse dia, as grades finalmente desapareçam. Então, como um pássaro que passou a vida inteira contemplando o céu através das grades, abrirei minhas asas sem medo. E voarei.

Não para fugir de você. Mas para, finalmente, voar ao encontro do seu coração.

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