Quando o silêncio aprendeu teu nome
Há noites em que o silêncio
parece ter memória. Ele se espalha pela casa devagar, ocupa os corredores,
repousa sobre os móveis e, quando tudo finalmente adormece, parece procurar
alguma coisa que já não está ali.
Talvez procure tua voz. Durante
tanto tempo ela fez parte das minhas noites. Ecoava ao meu lado enquanto o
mundo lá fora parecia desabar em suas próprias inquietações. Bastava ouvi-la para as coisas encontrarem algum sentido.
Havia em tuas palavras uma
espécie de abrigo, um lugar invisível onde eu podia descansar quando a vida se
tornava pesada demais. Hoje, o silêncio ocupa o lugar que antes era teu.
E descobri que existem
ausências que não se contentam em deixar vazios. Elas modificam o espaço ao
redor. A mesma sala parece maior. A mesma janela parece mais distante. Até o
café da manhã perdeu alguma coisa que não consigo nomear.
Talvez seja porque
determinadas pessoas não ocupam apenas um lugar em nossa vida. Elas passam a
fazer parte da paisagem da nossa existência. Lembro-me das noites de chuva.
O vento batia contra as
janelas, a água escorria pelo vidro e nós permanecíamos em casa,
protegidos daquele pequeno caos que acontecia do lado de fora. Conversávamos
sem perceber o tempo passar.
Inventávamos futuros. Falávamos
de viagens que talvez nunca fizéssemos. Imaginávamos uma casa perto do mar, um
lugar onde pudéssemos acordar ouvindo as ondas e terminar os dias contemplando
um horizonte sem pressa.
Naquela época, não sabíamos
que algumas conversas seriam, um dia, transformadas em lembranças. Talvez seja
esse um dos mistérios da vida: enquanto estamos vivendo determinados momentos,
não sabemos que eles estão se despedindo de nós.
Só depois compreendemos. Só
depois percebemos que aquela tarde aparentemente comum, aquela conversa sem
importância, aquele café compartilhado, aquela noite de chuva – tudo aquilo era
felicidade. Uma felicidade tão silenciosa que não precisou anunciar sua
chegada.
E foi embora do mesmo modo. Às
vezes ainda me surpreendo esperando ouvir teus passos. É um movimento quase
involuntário. A memória possui dessas crueldades delicadas. Ela nos devolve,
por alguns segundos, aquilo que a realidade nos tirou há muito tempo.
E então, quando estendemos a
mão para tocar a lembrança, ela se desfaz. Fica apenas o silêncio. Mas já não
tenho receio dele. Aprendi que o silêncio também pode guardar vozes. A tua,
principalmente.
Ela permanece nas pequenas
coisas: no cheiro do café recém-passado, no som da chuva, em uma música antiga,
em determinada fotografia, em uma palavra que alguém pronuncia sem saber que
acabou de abrir uma porta dentro de mim.
Há lembranças que não solicitam
licença. Entram. Sentam-se ao nosso lado. E permanecem em silêncio.
Tua ausência dói. Talvez
sempre doa. Algumas feridas não desaparecem; apenas deixam de sangrar todos os
dias. O tempo não apaga aquilo que foi importante. O tempo, quando muito, nos
ensina uma maneira menos dolorosa de carregar aquilo que não podemos mudar.
Hoje compreendo que sentir
saudade não é necessariamente querer voltar. Às vezes, é apenas reconhecer que
fomos profundamente tocados por alguém. E há pessoas que, mesmo após
partirem, continuam escrevendo em nós.
Tu és uma delas. Continuo caminhando,
embora alguns dias sejam mais difíceis do que outros. E caminho levando comigo
aquilo que não pude levar nas mãos: nossas conversas, nossos planos, nossas
noites, o som da tua voz e aquele estranho sentimento de segurança que existia
simplesmente porque estavas ali.
Não te vejo mais. Mas isso não
significa que tenhas desaparecido. Talvez algumas pessoas deixem de existir
diante dos nossos olhos apenas para começar a existir de outra maneira. Passam
a morar na memória. Na saudade. Naquilo que aprendemos com elas. Naquilo em que
nos tornamos depois delas.
E, quando a noite chega e a
casa novamente se enche de silêncio, às vezes fecho os olhos. Por um instante,
tudo parece voltar. A chuva. O vento. A luz fraca. Tua voz.
E eu quase consigo acreditar
que ainda estás aqui. Então abro os olhos. O silêncio continua. Mas já não
parece vazio. Porque agora sei que existem silêncios que não significam
ausência. Alguns apenas aprenderam a guardar um nome.
O teu.
Francisco Silva Sousa.

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